Há certos elementos que compõem a existência e que não deixam de chamar a atenção. Eles são curiosos. Nos deixam inquietos quando paramos para pensar verdadeiramente neles. Aquele sobre o qual vou me debruçar aqui é o mito da felicidade. Cada vez mais eu tenho pensado no quanto nós o cultuamos em uma obsessão que em nada fica a dever os europeus no auge do monoteísmo cristão. O ideal é um estado de espírito tranquilo, repleto de gozo. Que não se frustra, não se enfurece tampouco entristece. A maquinaria contemporânea dos discursos motivacionais ao invés de oferecer subterfúgios que nos façam lidar com a dureza que é constitutiva da própria vida, gera engano com a continuidade da profusão de discursos acerca de um mundo onde é possível se isolar cada vez mais e mais da intensa realidade. A falsa sensação que advém daí talvez preserve momentaneamente o psíquico pelo engano. 

Diante disso, é preciso dizer algo que está oculto, nas entrelinhas: a tal felicidade é eminentemente um ato de egoísmo. Embora seja assumir para si a tranquilidade individual, a qual em tese todos mereceríamos, a felicidade exige antes de mais nada a (des) responsabilização diante do mundo. Ou pelo menos o seu esquecimento. É jogando a tragédia do meu vizinho para o inconsciente que eu sou paz e beleza. Os meus sorrisos são produto da compactuação com a barbárie cotidiana. E quando tento alterar a destruição atávica do social é com o objetivo único de aumentar a minha satisfação, diminuir a culpa, reprimir o mal-estar. Enquanto eu não ignorar o sofrimento do outro, eu acabarei por sofrer também. Afinal, somos apenas pequenos grãos de areia incapazes de suportar a infinitude do horror que se acumula. Nossas questões privadas já pesam demais. Como não fugir dos tormentos de outrem? Mas fugir é admitir que somos partícipes da cretinice coletiva. É aí que a todo momento o discurso bonito entra em contradição com a prática feia. Há como escapar disso? Se metamorfoseando quem sabe… 

Todos os dias da minha vida, vivo essa angústia, ainda mais nos últimos tempos em que tenho me considerado uma pessoa bastante feliz, mesmo sabendo de tantos horrores e vivendo por vezes algumas angústias. Mas como é possível que eu seja feliz? Se quando vou a um restaurante e encho meu prato de comida em um self service, um mendigo transita entre as mesas pedindo moedas já que ele e sua familia se encontram em um estado de sub- nutrição? Se assisto aulas em salas refrigeradas e confortáveis de uma universidade que fica próxima a um acampamento de pessoas em estado de miséria? Se usufruo de serviços que são constituídos pela exploração brutal como o transporte por aplicativo e o trabalho terceirizado dos que limpam a minha sujeira? A loteria do nascimento me colocou em um lugar de relativa sorte onde eu não preciso me submeter aos desígnios doentios do mercado mais selvagem. Muitos em minha idade ou o fazem ou morrem de fome. E aqui só há uns poucos exemplos da dor que é produto dos fenômenos sócio econômicos. E a dor da doença, da morte? Que habita os hospitais e clínicas? E que são incontroláveis dada nossa vulnerabilidade? 

Uns vivem 70, 80, até 100 anos com saúde. Outros morrem na primeira infância, adolescentes ou jovens e de maneira trágica. Como diz Yuval Noah Harari, não existe justiça na história. Trata se de uma abstração. Não estamos caminhando para lugar nenhum. Esse é o fato fundamental com o qual é preciso lidar. Não é pessimismo, nem otimismo, e pasmem: sequer realismo. É o fato empírico, para usar o jargão da academia. A informação é bruta e pesa. Admiro aqueles que fazem do seu trabalho o tratamento direto com a dor. Os médicos, os assistentes sociais, os psicólogos, os enfermeiros, os bombeiros etc. Não à toa é muito comum recebermos notícias vez ou outra da morte física ou psíquica de algum desses profissionais. Ora, nada mais comum do que o suicídio de médicos que se esgotam ao tratar de pacientes em estado terminal ou de psicólogos que incorporam as questões que decorrem dos seus atendimentos. Temos aqui a antítese da felicidade: ao invés de fugir do sofrimento se faz uma imersão nele. São as vísceras expostas sem retoque ou pintura. 

Em um mundo insuportável, todavia, insistimos na felicidade. Afinal, entre o viver e a eterna escuridão, melhor viver com o fardo das questões remanescentes. Viver entre chicotadas e estardalhaços, mas com a possibilidade ainda que tardia de alegrar-se mediante o sorriso de uma criança. Crianças… É isso, são os traços da infância que nos dão sustentação e nos permitem, em certo grau, ignorar o mundo e abrir espaço para a felicidade. Da criança que ainda desconhece um por um os horrores que nos perpassam. Da criança que quer lidar com os seus brinquedos e o seu lanche ao invés de se atormentar com as neuroses ambulantes. Da criança que ainda vive em uma redoma de vidro, até o momento em que os adultos chegam e lhe incutem um trauma. São uns adultos malvados esses que fabricam as grosserias da fome, da violência e da guerra. Na contramão de tudo isso, em cada esquina é possível encontrar um indivíduo feliz e, portanto, dotado de uma alienação necessária que se não provem o eterno deleite pelo menos torna a dor e o sofrimento do outro coisas banais. 

Recomendação cinematográfica

Filme: Vitória Amarga 

Direção: Drama 

Nacionalidade: EUA 

Duração: 104min 

Direção: Edmund Goulding 

Ano: 1939 

Judith Traherne é uma rica socialite norte americana. Um dia, seu médico Frederick Steele faz um terrível diagnóstico: ela tem um tumor no cérebro. Submetida a uma cirurgia, aparentemente ela se recupera. E também se apaixona pelo cirurgião. Mas Steele conta à sua secretária que o tumor irá reaparecer e Judith poderá morrer. Ao saber disso, ela entra em profunda depressão. Mas o médico Steele tenta de todas as formas salvar a vida da jovem. 

Alguns documentários que vi recentemente 

SwipedHooking Up In The Digital Age” (2018) de Nancy Jo Sales 

Liberated: The New Sexual Revolution” (2017) de Benjamin Nolot 

“The Death and Life of Marsha P. Jonson” (2017) de David France 

“The Inventor: Out for Blood in Silicon Valley” (2019) de Alex Gibney 

“The Great Hack” (2019) de Karim Amer e Jehane Noujaim  

 

Recomendação bibliográfica

O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras? Nossa capacidade imaginativa. Somos a única espécie que acredita em coisas que não existem na natureza, como Estados, dinheiro e direitos humanos. Partindo dessa ideia, Yuval Noah Harari, doutor em história pela Universidade de Oxford, aborda em Sapiens a história da humanidade sob uma perspectiva inovadora.  

 

Recomendação musical

Já está disponível para audição no Spotify o novo disco da Halsey, estadunidense de Nova Jersey e uma das melhores cantoras de música pop da atualidade!

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Alberto Silva
Cientista Político, que carrega além das inquietações com a nossa sociedade e as formas de poder geridas a partir dela, um gosto pela escrita, pelas imagens e pelas diversas maneiras de expressão da beleza que está por trás do nosso interior.